quinta-feira, 27 de maio de 2010
O vento é assim. Sopra e pronto. E quando sopra voam as perucas do senhores que querem mostrar ter mais cabelo que o que têm, voam papéis que estavam desarrumados na secretária e que fingimos ver organizados, até abrirmos uma janela; voam os maços de tabaco recolhidos num canto de uma ruela, voam notas destinadas a ter uma determinada utilidade, e no meio de toda esta desarrumação, voas também tu. E logo tu, que dizias voar sozinho; mentiroso. Vi numa entrevista uma senhora que disse: 'Um dia o meu pai disse-me para escrever num papel 20 coisas que gostava de ter na pessoa com quem estou(...)'; e decidi fazer o mesmo. Mas quando alguém abriu mais uma porta na minha casa, o papel voou, e deve ter voado com todas as coisas que queria em ti, porque a última que sobrou, foi o adjectivo 'persistência', e esse não é teu, com certeza. O vento soprou-te e levou-te o cabelo. Soprou-te e pronto. Daqui a uns dias não serás mais que papéis desorganizados e espalhados no chão do meu quarto. Vais-te resumir aquilo a que sempre te resumiste. Numa escala de dez maços de tabaco por uma hora, ou menos, de discussão. E pela primeira vez na vida, vou-te saber comparar a dinheiro, e vou orgulhosamente conseguir dizer, que mesmo que te conseguisse comprar, nunca te compraria.
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